quinta-feira, 4 de março de 2010

Para reflectir...

Hoje cruzei-me com esta reflexão do filósofo Séneca:

Diariamente criticamos o destino: "Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?" Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inacção? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! "Viveu oitenta anos!". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.
"Viveu oitenta anos". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

e fiquei a pensar nisto...

12 comentários:

Tenshi Tori Kaji disse...

Mas é que concordo plenamente!

Já por isso, é que sempre digo que não tenho medo de morrer, mas sim de como poderei morrer... Se morresse hoje, morreria com um sorriso nos lábios... Porque morri enquanto estava vivo!

Tia_Cunhada disse...

Também penso assim...

Vamos lá sorrir muito enquanto por cá andamos :-)
Beijoca

antonio - o implume disse...

O quê? Tu hoje tropeçaste num pedaço de excelente prosa, servida por uma abordagem sócio-filosófica e... e citas-me o Zéneca (ou raio lá como se chama)!

susana disse...

Eu sorrio muito, não sorrio?

Tia_Cunhada disse...

António, não tropecei porque levava os faróis ligados...

Su, sorris sim... e tens um (sor)riso lindo...

Beijinho a ambos... os dois (hoje com direito a pleonasmo e tudo...)

antonio - o implume disse...

Bom poder de encaixe...

Casemiro dos Plásticos disse...

Por acaso já tinha lido e concordo em pleno, dá muito que pensar.
beijo

p.s. eu tb tou-me sempre a rir pá lol

Tia_Cunhada disse...

Oh António... um elogio?!

Casemiro... eu parto-me a rir com os teus posts. Haja humor :-)

susana disse...

Ó lady: sobre isto enviei-te um email ao qual ainda não respondeste... Agora deu-te para o Zéneca (ou lá como é que se chama...!).

antonio - o implume disse...

Ooops!

mdsol disse...

É o que se chama um cruzamento feliz! Vou continuar a pensar...

Beijinho para a Tia
:))

Tia_Cunhada disse...

Su... Zéneca? Tu também?! :-)
Não recebi o teu email mas o iol anda outra vez com problemas...

:-) até tu te surpreendes António...

Miss Solarenga, haja vigor :-)

Beijocas três